Thursday, August 03, 2006

Benfica: que sistema?


O debate está na ordem do dia, qual o sistema táctico mais adequado para o Benfica?
Afirma-se que o 4x4x2 com o meio campo disposto em losango não está a ser assimilado pelos jogadores, foi o próprio Fernando Santos a fazê-lo, mostrando-se disposto a regressar ao sistema que o Benfica teve nas últimas épocas, o 4x3x3 ou a variante do 4x2x3x1.

As opiniões dividem-se, quer na imprensa desportiva, tendo já sido solicitados os pareceres de diversos técnicos sobre a questão, quer também em conversas de café entre os adeptos do clube.

Os sistemas tácticos têm importância, é um facto, pois são eles que definem o modo de colocação dos jogadores no terreno de jogo, e que servem de base ou ponto de partida para os deslocamentos dos jogadores e para a coordenação das respectivas acções individuais e colectivas. A importância dos sistemas é esta, depois há outras coisas tão ou mais importantes que o sistema, como sejam o modelo de jogo, ou seja, a dinâmica que se quer dar a esse sistema, o método de jogo, quer defensivo quer ofensivo e muitos outros aspectos.
Duas equipas podem jogar com o mesmo sistema táctico e apresentarem uma forma de jogar totalmente diferenciada, uma pode apresentar um futebol mais apoiado, passe curto, triangulações ao longo do campo, um ataque posicional ou organizado, a outra pode praticar um futebol mais directo com muitos passes longos a defender à zona e a atacar pode utilizar o método ofensivo do contra-ataque.

Os críticos do 4x4x2 (losango) costumam argumentar que o sistema faz “afunilar” o jogo, que se perdem as referências atacantes por via da não utilização dos corredores laterais. Não é verdade, é certo que o sistema não contempla a utilização de médios ala ou extremos de raiz, mas neste sistema cabe aos laterais terem a disponibilidade e características para poderem descer pelos seus corredores e apoiar as acções ofensivas e também através da mobilidade dos avançados, com um deles ou os dois a descaírem para uma das alas em determinados momentos. Outro aspecto importante deste sistema é o médio mais recuado, é importante que este tenha um bom sentido posicional e que esteja disponível para compensar as descidas dos laterais, é necessário não apenas ter atenção a onde está a bola, mas também ter uma noção dos espaços, no que respeita à cobertura dos mesmos e também às acções de cobertura defensiva dos colegas de equipa. A dinâmica dos médios interiores também tem que ser muita, em termos de mobilidade, de permutas posicionais e de muita posse e circulação de bola, quer entre eles, quer com os laterais.

O plantel do Benfica com a perspectiva de venda de Simão Sabrosa, com a saída de Geovanni e também com o regresso de Rui Costa, pareceu talhado para este sistema, dada a quantidade e qualidade de opções para o meio campo e ataque. Assim também pensou Fernando Santos. Mantendo a estrutura defensiva que se mostrou bem sucedida na época passada e com a profundidade em termos ofensivos que Léo e Nelson imprimem, o losango do meio campo seria constituído da seguinte forma: nos vértices defensivo e ofensivo, nomeadamente e respectivamente, Katsouranis ou Petit e Rui Costa, sendo que Karagounis parece ter características para encaixar em qualquer um dos quatro vértices, ainda há Nuno Assis e também Paulo Jorge, um polivalente que também pode jogar numa faixa. Na frente abundam as soluções, sobretudo com a contratação do internacional Mexicano Kikin Fonseca a juntar-se a Miccolli, Marcel, Mantorras e Nuno Gomes, sendo que este último parece sentir-se muito mais à vontade jogando em sistemas que contemplem dois avançados. Por tudo isto o 4x4x2 (losango) parecia uma opção válida, porém os resultados e sobretudo as exibições, excepção feita ao jogo frente ao Bordéus onde a equipa deu boas indicações, não confirmaram isso levando o treinador Fernando Santos a assumir que regressará ao anterior sistema, o 4x3x3 e sua variante 4x2x3x1.

Vistos os três últimos jogos o que se observou foi uma total incapacidade para fazer circular a bola, a ponto de serem raras as vezes em que esta chegou à área contrária, apenas esporadicamente e por via de passes longos ou bolas paradas, pouca ou nenhuma coordenação da acção colectiva da equipa, uma excessiva fragilidade defensiva, pouca ou nenhuma mobilidade, uma incapacidade de reagir ao pressing dos adversários (bem patente no jogo frente ao Sporting). Em termos de colocação dos jogadores apenas se poderá discutir Petit na posição de médio interior direito, será aquela e talvez a única a considerar-se algo “contra-natura”, quanto ao resto nada a assinalar.

Se o regresso ao sistema das últimas épocas se consumar, a boa notícia seria o não avanço das negociações que viabilizariam a saída de Simão Sabrosa, pois o plantel foi pensado sem ele, e os médios ala/extremos que entraram este ano não são substitutos à altura de Simão, apesar das boas indicações de Manu e Paulo Jorge.
O 4x3x3 puro não parece ser o mais indicado para tirar partido da classe de Rui Costa, pois isso envolveria o jogador em tarefas defensivas que o desgastariam para aquelas em que ele é um exímio executante, portanto tudo indica que a opção será o 4x2x3x1, mantendo a estrutura defensiva, colocando um duplo pivot na primeira linha do meio campo, constituído por Petit e Katsouranis, na segunda linha do meio campo jogariam Manu na direita e Paulo Jorge na esquerda, com Rui Costa no apoio a um único ponta de lança. A questão que se coloca é o desperdício de médios centro como Assis e Karagounis, e sobretudo o desperdício de avançados, aliada à falta de soluções para as alas, para além das já referidas. Uma alternativa seria a colocação de Miccoli numa faixa (algo que não é estranho para o jogador, já que no Perugia jogou diversas vezes nessa posição), Fonseca também tem mobilidade para jogar mais descaído para um dos corredores laterais, é um mero exercício de especulação, pois apenas Fernando Santos terá a palavra decisiva



PS: Na edição de hoje do jornal “A Bola”, José Manuel Delgado avançou com uma alternativa, o 3x4x1x2. De facto também me parece uma solução que potencia a composição do actual plantel, evitando o desperdício de jogadores que o 4x2x3x1 acarreta, no entanto há apenas um pormenor que o autor não refere e que poderá ser um “pormaior” - na impossibilidade de utilizar Nelson e Léo (lesões, cartões), quem ocuparia essas posições tão fulcrais nesse sistema?
A existência de apenas dois laterais no plantel é aliás, para mim, a única debilidade para a utilização do 4x4x2 (losango).