
Johan Cruijff
Os jogos vão passando e o encanto permanece: a actual época do Barcelona está a deslumbrar os amantes do futebol. A qualidade demonstrada pelos catalães resulta, invariavelmente, em copiosas goleadas infligidas aos adversários.
A verdade é que o Barcelona tem sido, nos últimos anos, como que um refúgio dentro do actual modelo do futebol europeu, na medida em que diverge de todos os grandes postulados que regem a ideologia futebolística moderna, cujo grande paradigma reside, actualmente, na liga inglesa.
À dimensão física do jogo, o Barcelona opõe técnica e criatividade, condimentos que bem estruturados tacticamente, têm produzido aquele futebol apoiado, ofensivo, de circulação de bola constante que assombra os adversários.
Se este ano, com Pep Guadiola, os níveis de brilhantismo têm atingido um patamar muito elevado, é preciso não esquecer os anos anteriores com Frank Rijkaard, em que, inclusivamente, o clube se sagrou campeão europeu.
Existe uma simbiose perfeita entre a cidade condal, com os seus elevados padrões estéticos, e o clube, com o seu futebol artístico e harmonioso.
Esta filosofia nasce com a chegada de Johan Cruijff à Catalunha. Foi ele, com os princípios do «futebol total» que trouxe da Holanda, quem marcou indelevelmente o futebol blaugrana. O dream team inscreveu-se no código cultural do clube, como bem atesta, por exemplo, o facto de Guardiola – um dos seus grandes intérpretes – ser o actual treinador.
O futebol produzido pelo gigante da Catalunha é assim um misto do futebol total com o futebol-arte – essa invenção brasileira que também entrou em declínio a partir da década de 70 e que é hoje um conceito que assenta perfeitamente nas exibições de Messi, Iniesta, Xavi e companhia.
Se a conquista da liga espanhola, com um ou outro tropeção, dificilmente deixará de ser uma realidade, o grande desafio deste Barcelona será a tentativa de conquistar a Champions League. Os catalães são apontados como grandes favoritos. No entanto, é preciso recordar que a história do futebol está repleta de casos em que os favoritos, aqueles que mereciam todos os aplausos e vénias, acabaram derrotados face àqueles que eram apelidados de cínicos e pragmáticos. O próprio dream team de Cruijff viveu esse drama quando foi estrondosamente goleado pelo AC Milan de Fabio Capello na final da Taça dos Campeões Europeus de 1994.
Ainda a época passada, o Barcelona foi eliminado por um frio e calculista Manchester United. Na Champions, até um clube como o Manchester United, de Ferguson, trai o seu estilo e transforma-se numa equipa totalmente diferente daquela que joga na Premiere League. Este Barcelona de Guardiola não o faz, nem fará, seguramente. A sua filosofia é dogmática. Joga sempre da mesma forma, seja na liga espanhola, seja na Liga dos Campeões. Isso poderá ser-lhe fatal. Talvez. Mas, tal como já referiu Cruijff, ainda hoje a selecção holandesa do Mundial de 1974 é mais falada e recordada do que a equipa que conquistou a prova.
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