
É incontornável. A selecção holandesa normalmente costuma colher os maiores elogios, não raras vezes merecidos, diga-se. Sempre que oferecem um cheirinho daquele futebol móvel, ofensivo e criativo que se lhe colou como rótulo desde há muitas décadas, logo o mundo se apressa a puxar da memória – sem grande nexo por vezes – pela Holanda, o Ajax e o futebol total que encantou e revolucionou o mundo do futebol na década de 70.
Apesar dos exageros, é do conhecimento geral que, de facto, o futebol holandês tem “escola”, algo que é fielmente retratado pela sua selecção nacional e por muitos dos seus clubes. Salvo raras excepções, há na maioria dos treinadores holandeses uma preocupação evidente com a dimensão estética do jogo.
Neste mundial, espera-se uma Holanda um pouco parecida com aquela que nos foi apresentada no último Europeu. Uma equipa carregada de talento e criatividade do meio campo para a frente e com menor dose desses atributos atrás dessa linha, onde predomina, sobretudo, o músculo. Em 2008, apesar do brilho de Sneijder, Van Der Vaart, Kuiyt, e companhia, a equipa em campo dividia-se, muitas vezes, em dois blocos estanques – um que só atacava e outro que só defendia. Esta característica do seu jogo foi brilhantemente explorada – com alguma dose de ironia – pelo holandês e sagaz Hiddink, e a selecção laranja acabou por abandonar o certame mais cedo do que alguma crítica já fazia prever.
Na África do Sul, o lote de futebolistas não mudou muito, o seleccionador é, porém outro e aguarda-se com alguma curiosidade pelo desfecho desta participação.
Bert Van Marwijk, vencedor em 2002 da Taça Uefa ao serviço do Feyenoord, é agora o homem que comandará o sonho laranja.
Tacticamente espera-se uma Holanda que continuará a carrilar jogo pelas alas, apesar das dúvidas em torno de um dos seus melhores ocupantes (Arjen Robben), mas em que, à semelhança do que já ocorreu em 2008, o duplo pivô à frente do quarteto defensivo parece ser uma ideia firme, invertendo assim, aquilo que é a tradicional opção da dita escola holandesa, do 4-3-3 mais clássico, com apenas um pivô defensivo. Esta opção não deixará de estar relacionada com a necessidade de dar maior cobertura a uma linha defensiva que não acompanha o brilhantismo do sector mais avançado da equipa. Ainda assim, arrisco afirmar que, seguramente, haverá espectáculo nos jogos da equipa de Van Marwijk. Quanto ao favoritismo, não. A Holanda não é historicamente favorita. Espera-se dela o já referido espectáculo mas que, contudo, não passa de alimento para os românticos, pois o alcance do título mundial será sempre, na mente de muitos, uma eterna quimera para os estéticos holandeses. Eu acredito que um dia, à semelhança do que aconteceu com a "fúria" espanhola, este mito em torno do futebol holandês acabará por cair e consagrar este futebol como ele efectivamente merece.