Tuesday, September 05, 2006

Conquista da liga espanhola: o terceiro elemento

Nas últimas duas décadas, apenas por quatro vezes, a hegemonia dos dois colossos (Real e Barcelona) foi derrubada.
Atlético de Madrid (campeão em 95/96); Deportivo (99/00) e por último, e mais recentemente, o Valência (01/02 e 03/04).

Esta temporada não fugirá à regra, e quer Barcelona, quer Real Madrid estarão no “pelotão da frente” a fim de arrecadarem mais um título para juntar à enorme colecção que já possuem.
No entanto, haverá mais uma vez, quem queira contrariar essa tendência, tendo para o efeito, apresentado argumentos extremamente fortes, sobretudo no que respeita ao reforço das suas equipas. Dentro desse grupo, encontra-se o C.F. Valência, que se tem afirmado nas últimas épocas como um dos mais sérios candidatos a lutar pelo título espanhol.

Após as malogradas negociações para a contratação de Simão Sabrosa, e também após alguma especulação em torno do possível interesse em Cristiano Ronaldo, o clube che virou-se para outros lados e conseguiu, sem dúvida, colmatar o insucesso desses fracassos negociais.

Existem três reforços que merecem nota de destaque: Morientes; Joaquín e Francesco Tavano. Não esquecendo ainda, Asier Del Horno e Edu.
Com a contratação de Joaquín, a juntar ao já “morador” no clube, Vicente, o clube consegue ter ao seu dispôr os dois melhores médios ala/extremos espanhóis, não esquecendo também, o irrequieto internacional uruguaio, Regueiro, que foi titular durante grande parte da época passada devido à lesão que afastou Vicente dos relvados e que o impossibilitou até de estar presente no mundial da Alemanha.

Fernando Morientes, após um período algo apagado em Inglaterra, é indiscutivelmente um dos melhores pontas de lança espanhóis, que também poderá formar com David Villa, uma das mais atraentes duplas de avançados a actuar em Espanha, e não só.

Um nome menos conhecido é o do avançado Francesco Tavano. O italiano, que há duas épocas atrás, jogava na série B italiana, foi uma das grandes revelações da última temporada no Cálcio, ao serviço do Empoli, tendo apontado 19 golos em 37 partidas jogadas. Já na penúltima época, na série B, apontara o mesmo número de golos em 42 jogos realizados.
As principais características de Tavano são a velocidade, mobilidade e grande sentido de finalização.

Refira-se que o clube manteve o "núcleo duro" da equipa. Quique sanchéz Flores continua a ser o treinador e no que respeita a saídas de vulto do plantel, destacam-se apenas os casos de Pablo Aimar (Real Zaragoza) e do avançado Mista (Atlético Madrid), quanto ao resto, destaque para a permanência dos internacionais Ayala e Marchena - pilares do eixo defensivo da equipa nos últimos anos - e Baraja e Albelda, no meio campo - uma das melhores duplas de pivots defensivos do campeonato espanhol.

Plantel do C.F. Valência - 2006/2007:


  • Guarda-Redes: Cañizares; Butelle ; Mora
  • Defesas: Miguel; Ayala; D. Navarro; Curro Torres; Marchena; Albiol; Moretti; Del Horno
  • Médios: Vicente; Joaquín; Regueiro; Hugo Viana; Albelda; Baraja; Jorge López; gavillan; Silva; Edu
  • Avançados: David Villa; Morientes; Angulo; Tavano

Thursday, August 31, 2006

O mito do "catenaccio"


O futebol italiano não se livra do rótulo de “defensivista”, que foi e continua obstinadamente a ser colado ao seu futebol..
Ultrapassando a questão de se saber se, actualmente, a dicotomia do futebol defensivo/futebol ofensivo faz sentido, é incontornável reflectir sobre os rótulos permanentemente aplicados (por muitos) ao futebol italiano.

Importa recordar que o País onde foi inventado o catenaccio, foi o mesmo país que deu a conhecer ao mundo do futebol, a chamada “zona mista”, que tal como o nome indica, consistia num método defensivo que mesclava marcações á zona e marcações ao homem. Contudo o advento ainda mais significativo foi a “zona pressionante” de Arrigo Sachi.

É certo que o “catenaccio” era um sistema de jogo, enquanto que a “zona pressionante” era um método de jogo (defensivo), contudo, daí não se pode concluir a maior importância do primeiro face ao segundo, aliás, se se subscrever aquela ideia de que mais do que o sistema de jogo, é a dinâmica do mesmo (dada pelo modelo de jogo) que é realmente importante, então, é que não se pode mesmo subvalorizar o advento da “zona pressionante”.

A incorporação do pressing na “defesa à zona” consistia numa forma agressiva de marcar o espaço e o portador da bola, com o claro objectivo de, não apenas impedir o desenvolvimento da acção ofensiva contrária, mas também de recuperar a bola de forma rápida para poder iniciar o ataque.

A “zona pressionante” de Arrigo Sachi, implementada no seu A.C. Milan da década de 80, para além de um método defensivo, constituía, também, uma forma organizada de atacar. Uma equipa tem que ter um método para defender e outro para atacar, e de preferência, ambos devem ser compatíveis de forma a potenciarem a eficiência do jogo da equipa no seu todo, isto é, nas fases defensiva e ofensiva e respectivas transições entre as mesmas, o que constitui actualmente um dos grandes princípios de jogo das equipas de top actuais. No entanto, e apesar de quase nada restar dele nos campos de futebol mundiais, o futebol italiano continua a ser olhado, injustamente, apenas à luz da invenção do catenaccio.

Frase do dia

"...Em França não há um F.C. Porto, um Sporting ou um Benfica, mas o futebol francês supera o português..."

Laszlo Boloni

Tuesday, August 29, 2006

Sporting: o losango dinâmico


Como já referi, e sendo uma questão pacífica para quem gosta destas reflexões em torno das questões tácticas, o sistema 4x4x2 com o meio campo disposto em losango, é um sistema que, comparativamente a outros, exige alguns preceitos específicos.
Defendem alguns especialistas que este sistema de jogo é algo desequilibrado, sobretudo quando comparado com outros sistemas. Esse desequilíbrio justifica-se por via de uma distribuição pouco racional dos jogadores no terreno de jogo (mais em profundidade que em largura).

É evidente que, tal como em outros sistemas de jogo, há que considerar a dinâmica do sistema que é dada, quer pelo modelo de jogo que o treinador preconiza, quer pelas características dos jogadores.

Ao nível da dinâmica de jogo, existem algumas ideias que podem minimizar esse desequilíbrio teórico, desde logo, a dinâmica dos médios interiores, tornando-se imperioso que joguem em permanente transição defensiva/ofensiva. A questão da largura é bastante importante neste sistema, que não contempla jogadores posicionados, de base, nas alas. A lateralização do jogo fica assim entregue à referida dinâmica dos médios interiores, às subidas dos defesas laterais e também à mobilidade dos avançados.
Em suma, poder-se-á afirmar que existem princípios de jogo quase obrigatórios para este sistema: muita mobilidade; permanentes acções de permuta posicional e muita circulação de bola.

O Sporting é um exemplo em Portugal, de uma equipa que utiliza este sistema com reconhecida eficiência.
Para já, encontra-se rotinada neste sistema, visto que iniciará a terceira época consecutiva com a utilização do mesmo, apesar dos diferentes treinadores que o têm vindo a trabalhar. Outro aspecto a assinalar é o facto de possuir um plantel “à medida” do sistema de jogo. Não existem médios ala ou extremos no plantel, com excepção do Camaronês Douala, existindo sim, bastantes médios centro. Para o vértice recuado do losango, existem duas opções “naturais”: Custódio e Carlos Paredes. Para os restantes vértices, existe um lote considerável de jogadores que aí poderão encaixar: Carlos Martins; João Moutinho; Nani; Romagnoli; João Alves; Farnerud sendo que qualquer um deles poderá ocupar qualquer um dos vértices. Acrescente-se ainda, Paredes e Tello, que também poderão jogar na posição de médios interiores.
Da observação dos jogos de pré-época e do jogo contra o Boavista, pôde constatar-se a evidência dos princípios de jogo supra-mencionados.

Wednesday, August 23, 2006

Luz aos pés do maestro



O S.L. Benfica conseguiu a passagem à fase de grupos da Liga dos Campeões, juntando-se assim a F.C. Porto e Sporting.

A classe de Rui Costa foi uma constante até à saída aos 66 minutos para uma justa e estrondosa ovação dos milhares de adeptos que, maravilhados por tudo o que fez em campo, não deixaram de lhe prestar.

Alinhando no habitual sistema táctico dos últimos anos (4x2x3x1) e com o mesmo “onze” que conseguira empatar há 15 dias em Viena, o Benfica teve sempre o controlo e o domínio do jogo, e claro está, a “batuta” de Rui Costa que deliciou os adeptos do clube e do futebol em geral. O maestro “empurrou” a equipa através de passes curtos e longos, “rasgos” individuais e a sua extraordinária visão de jogo. A bola sempre que saía dos seus pés quase sempre desembocava numa jogada de perigo para o adversário. Tudo isto culminado com um excelente remate à entrada da área que resultou no primeiro golo, acção que teve a importância directa de abrir o marcador no jogo de ontem, mas também, de ter constituído um momento revestido de enorme importância do ponto de vista simbólico.

Rui Costa empolga o público, mas também os companheiros e para além disso, o Benfica colmatou uma grande insuficiência patenteada durante os últimos anos ao nível do seu jogo: a transição defesa-ataque.

Em termos individuais, destaque também para Nuno Gomes, sempre activo, em permanente movimento e denotando um entendimento perfeito com Rui Costa.
Nas alas, Manú, um velocista que acelerou o jogo sempre que pôde e sempre que se impunha em jogadas de um-contra-um (e foram várias essas situações).

Paulo Jorge, bastante influente na movimentação sem bola, sempre muito móvel, criou muitas vezes linhas de passe, fundamentais na fase ofensiva do jogo da equipa. A disponibilidade que manifestou em recuar no terreno foi sempre, também, muito valiosa em termos defensivos.

No meio campo, para além da habitual entrega de Petit, katsouranis, que começou lentamente a assumir grande importância nas acções de recuperação da bola. Extraordinária a capacidade do grego, de adivinhar o espaço onde a bola vai parar, antes da mesma partir dos pés do adversário.

Em termos colectivos, deixo aqui as palavras de Fernando Santos que resumem bem o que penso e que vão ao encontro do que já foi referido em posts anteriores.


Pergunta: A equipa já se adaptou à táctica?

“…em termos de filosofia e modelo, estávamos claramente a chegar lá. Hoje conseguimos pegar mais à frente, pressionar mais alto…É isso que permite mandar no jogo…”

Convocatória de Scolari: dois destaques


Carlos Martins: Se conseguir ultrapassar os problemas físicos que o têm apoquentado nos últimos anos, pode fazer uma época à medida do seu talento.
Carlos Martins é um médio centro cujas principais características são a entrega ao jogo e a versatilidade. No Sporting, ocupa, normalmente, a posição de médio interior, quer à esquerda, quer à direita. Também pode ocupar o vértice ofensivo do losango leonino, apesar de raramente Paulo Bento o colocar nessa posição. Carlos Martins tem dotes de organizador de jogo: qualidade no passe, visão de jogo, os arranques e os remates de meia distância. Constitui boa alternativa a Maniche ou Deco.


Ricardo Rocha: Defesa central muito forte na marcação, também ele fazendo da polivalência um verdadeiro trunfo, sobretudo tendo em conta a importância que a mesma tem a nível de selecções. Ricardo Rocha também pode ocupar a posição de defesa lateral, tendo já desempenhado inúmeras vezes essa função no S.L. Benfica, uma das quais terá ficado na retina pela boa exibição e que até valeu um elogio do melhor jogador do mundo.

Monday, August 21, 2006

Início da Liga Inglesa: primeiras impressões

O Chelsea iniciou o campeonato com uma vitória (3-0 frente ao Manchester City).
Apesar de ter jogado num sistema diferente daquele que na maioria das vezes jogara nos dois últimos campeonatos, os princípios de jogo não se alteraram.

A equipa jogou com um sistema de 4x4x2 clássico: uma linha de quatro defesas, Bridge na esquerda, P.Ferreira, na direita, e no centro, R.Carvalho e J.Terry; no meio campo, uma linha de quatro homens: ao centro, Essien e Lampard, o primeiro como médio mais defensivo e o segundo mais como médio de transição; nas alas, Robben, na esquerda e Wright-Philips na direita; na frente a dupla Schevchenko/Drogba.

Em teoria, o sistema pode parecer algo desequilibrado em termos defensivos. Jogando com extremos puros, com pouca cultura defensiva, com Essien como único médio defensivo, sabendo-se que é um jogador com elevada propensão para subir no terreno, ao contrário do habitual ocupante desse espaço, Makelele, muito mais reservado no que respeita a subidas às áreas contrárias.














Posto isto, seria de esperar alguma dificuldade no que respeita às transições ataque-defesa. No entanto, não foi isso que se verificou. O Chelsea manteve os seus sólidos princípios de jogo: pressão alta; muita posse de bola; circulação rápida da mesma, quando ganha em zonas próximas da área adversária; utilização dos corredores laterais, por via da velocidade imposta pelos jogadores que daí partem.
Em termos de transição defensiva, a “zona pressionante” foi quase sempre eficaz, tendo-se visto sempre os jogadores em permanentes acções de cobertura, quer na fase defensiva, quer na fase ofensiva.
O único aspecto que, porventura, ainda terá que ser mais consolidado, será ao nível das movimentações da dupla atacante. Schevchenko, e sobretudo Drogba (apesar do belo golo que marcou) parecem não ter ainda ganho os devidos mecanismos para poderem formar aquilo que potencialmente são: uma das melhores duplas atacantes da Europa.


O Manchester United também entrou com o pé direito, vencendo o Fulham por expressivos 5-1.
Sistematizada também em 4x4x2, a equipa apresentou muita mobilidade na frente de ataque: Rooney e Saha, mais na zona central, com o primeiro mais móvel, partindo muitas vezes das alas, ou surgindo nas costas do Francês. Nas alas, também muita mobilidade, Giggs e Ronaldo permanentemente a trocarem de faixa, também flectiam para o centro muitas vezes. Movimentos ofensivos em largura e profundidade, sempre com o apoio dos laterais; Neville (depois, Wes Brown ) e Evra. Foi um vendaval de futebol ofensivo a que a equipa do Fulham não resistiu, até porque o resultado começou a construir-se bem cedo (4-0 aos 19 minutos).

Se Chelsea e M.United entraram com o pé direito, já o mesmo não se pode dizer dos outros dois candidatos ao título, Arsenal e Liverpool, empataram (1-1 foi o resultado nos dois jogos) com Aston Villa e Sheffield United, respectivamente.

Apesar do mau resultado (ainda por cima na estreia oficial do seu novo estádio), o Arsenal teve uma exibição muito atraente, como aliás, tem sido seu apanágio nos últimos anos.
Alinhando em 4x4x2 clássico, teve sempre o domínio do jogo, com um caudal de futebol ofensivo absolutamente esmagador. Passe curto, desenhando harmoniosas triangulações, quase sempre em 1 / 2 toques, a equipa ocupou o meio campo adversário quase durante toda a partida, mais em profundidade, e pela zona central, que em largura, fruto porventura de ter nas alas dois “falsos extremos”, Ljungberg e Hleb. O Arsenal acabaria por ver o adversário inaugurar o marcador, na sequência de um pontapé de canto. Se a equipa de Birmingham até então havia privilegiado o jogo defensivo, a partir daí, foi aquilo a que por cá costumamos chamar de “autocarro estacionado em frente à baliza”, pois é, não é apenas na liga portuguesa que existe o fenómeno…

Já o Liverpool, apesar de não ter jogado em sua casa – deslocou-se ao estádio do recém-promovido, Sheffield United – teve para além do resultado não positivo, uma exibição também pouco conseguida. Também, com um sistema de 4x4x2, o Liverpool teve claras insuficiências em termos de transição ofensiva.












Num meio campo onde apenas o médio defensivo Sissoko deu nas vistas, jogavam também Zenden e Gerrard, este último descaindo para o lado direito. Sabendo-se que, apesar de ser um extraordinário jogador, o “habitat” natural do capitão da equipa é ao centro e pelo facto de se estar a dividir entre o centro do terreno e a ala direita, a equipa, não apenas deixou de usufruir da capacidade de construção de Gerrard, como pareceu algo desequilibrada, encarrilando o seu jogo exterior mais pela ala esquerda, onde estava Mark Gonzalez (que entrara para substituir o lesionado Riise) que, apesar da velocidade que procurava imprimir, acabou por estar pouco inspirado nas suas acções.
Um Liverpool que revelou os pontos fracos já vistos anteriormente: dificuldade de jogar em ataque continuado/organizado, que normalmente é mais evidente quando tem que enfrentar equipas muito "fechadas"e a excessiva dependência de Steven Gerrard.

Thursday, August 17, 2006

LEITURAS


Imprescindível para os amantes do desporto rei.
Para além de biografia, este livro é também parte importante da história do futebol, e não só .

Copa Libertadores 2005-2006



O Internacional de Porto Alegre ganhou a Copa Libertadores, empatando 2-2 em casa frente ao São Paulo F.C., na segunda mão da final da edição deste ano da mais prestigiada competição de clubes do continente americano.
Há quinze dias, o Inter tinha vencido no Morumbi por 2-1.

Treinado por Abel Braga, um treinador que já trabalhou em vários clubes portugueses, o Inter jogou frente ao São Paulo num sistema de 3x5x2. Na defesa, três centrais: Fabiano Éller, Bolívar e Índio. Os laterais, Jorge Wagner e Ceará apoiando muito nas acções ofensivas, não deixavam de recuperar rapidamente no terreno quando a equipa não tinha a bola. No meio campo, Edinho, o médio mais defensivo, posicionava-se um pouco à frente dos centrais, recuando também para perto destes quando o adversário tinha a bola. À frente destes, Tinga (já jogou no Sporting) e Alex são os responsáveis pela transição ofensiva, sendo que o primeiro mais descaído para a direita, também tinha a missão de compensar as subidas do lateral Ceará. Na frente, a grande coqueluche da equipa, um vagabundo que deambula por toda a frente de ataque, ora aparece ao meio, ora arranca de uma das faixas, um jogador com enorme talento, veloz, esquivo e muito forte no um-contra-um: Rafael Sóbis, que joga nas costas de Fernandão, o ponta de lança mais fixo e que ontem abriu o marcador para a equipa do Colorado.

Thursday, August 10, 2006

Red Bull Salzburg: Um paradigma da modernidade

O Red Bull Salzburg que ontem cometeu a proeza de vencer o Valência na 1ª mão da 3ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões é o paradigma da comercialização do futebol, e até, em última análise, da comercialização da história.

O clube, fundado em 1933 com o nome SV Austria Salzburg, após várias fusões ao longo dos anos que lhe foram alterando o nome (SV Casino Salzburg, SV Salzburg), acabou por ser comprado pela empresa Red Bull no início de 2005.

É conhecida a aposta estratégica da empresa de bebidas energéticas austríaca, ao nível do investimento no desporto de alta competição, sendo a Fórmula 1 o exemplo com maior visibilidade.

No futebol, para além da aquisição do histórico clube da cidade austríaca, a Red Bull também adquiriu o franchise do New York Metro Stars da Major League Soccer (liga de futebol profissional norte-americana), não obstante neste caso os contornos da aquisição terem sido diferentes dos que envolveram o clube de salzburg.

Assim que se oficializou a compra do SV Salzburg, os novos proprietários do clube anunciaram que o clube era um novo clube, manifestando a vontade de renegar a sua história e de alterar o seu nome, o emblema e as cores, o que motivou uma reacção de revolta dos seus adeptos. Assistiu-se também a uma verdadeira onda de solidariedade para com os adeptos do clube austríaco em diversos estádios de futebol europeus.



As pretensões dos responsáveis da empresa austríaca acabaram por concretizar-se e assim nasceu o Red Bull Salzburg com um novo emblema e novas cores. Os adeptos dividiram-se, uns aceitaram a situação, outros não, o que é certo é que o Red Bull Salzburg está aí e ontem até deu um enorme passo para a entrada na principal prova de clubes realizada na Europa.

Orientada por uma dupla famosa no futebol europeu, um como jogador de topo, outro como jogador e treinador, Lothar Matthaus e Giovanni Trappatoni, sendo este último, na prática, o grande responsável técnico da equipa, o Red Bull constituiu um plantel com quantidade e qualidade para lutar por objectivos ambiciosos. Nomes como Alexander Zickler, Thomas Linke, e Niko Kovac, entre outros, são nomes sonantes que compõem o actual plantel.



O ano passado ficaram em segundo lugar na Bundesliga austríaca, o que lhes valeu disputar a 3ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões.

A equipa frente ao Valência actuou num sistema de 4x2x3x1, alicerçada numa sólida organização defensiva, fazendo um pressing intermédio e procurando a saída rápida para o ataque.

No sector defensivo, dois centrais experientes, Thomas Linke (ex-jogador do Bayern Munique), forte na marcação e no jogo aéreo e Jorge Vargas (várias épocas na liga Italiana), um central mais móvel, que também sabe sair a jogar desde a sua grande área.
Os laterais, Dudic na esquerda, sempre mais recuado e com missões mais defensivas e Bodnar na direita, já procurando algumas vezes apoiar o ataque. No meio campo, um médio defensivo “todo-o-terreno” argentino, Carboni, exímio na recuperação de bola e na ocupação de espaços; Janocko e sobretudo o internacional Croata Niko Kovac são os artificies da construção de jogo em termos ofensivos. Na frente o experiente Zickler, forte no jogo aéreo e a jogar em cunha entre os centrais, mas também com alguma mobilidade, recuando muitas vezes no terreno para apoiar os seus colegas da intermediária. É, no entanto, nas alas que residem os jogadores mais interessantes da equipa, e que, frente ao Valência, fabricaram em conjunto o golo que valeu a vitória da equipa, na direita Pitak, robusto e tecnicista, tanto sobe no corredor para desferir cruzamentos para a área, como arranca em diagonais na direcção da mesma, juntando-se por vezes a Zickler fazendo de 2º avançado. Na esquerda, Patrick Jesek, um jogador de elevado recorte técnico, com velocidade e muito forte no um-para-um. Uma equipa interessante para seguir daqui a quinze dias no Mestalla.

Tuesday, August 08, 2006

Benfica: o modelo e o sistema

«Este ano, mais importante que o sistema, o Benfica vai ter, e não vou abdicar disso, uma filosofia de jogo que é a minha...quero uma equipa que mande no jogo, uma equipa capaz de pressionar alto, um bloco compacto mas mais subido, capaz de impor o respeito em relação aos adversários, e não uma equipa de contra-ataque, uma equipa que joga mais baixa no campo, que procura essencialmente defender, através de lances individuais ou no contra-ataque, resolver o jogo. Não vou abdicar dos meus princípios, repito, e mais importante que o sistema é aprender essa filosofia, o que não se consegue em 20 ou 30 dias

Fernando Santos


Tal como já tinha escrito, o sistema de jogo por vezes é sobrevalorizado por quem analisa o rendimento de uma equipa, quer sejam os adeptos, quer sejam - e estes com maior responsabilidade - os jornalistas.
Há aspectos tão ou mais importantes que o posicionamento de base dos jogadores de uma equipa, como sejam o modelo e/ou a filosofia de jogo. Ora a este nível, os expectadores mais atentos sabem que nos últimos anos, para além de um sistema de jogo assente no 4x3x3 e suas variantes, em termos de modelo de jogo, o Benfica foi essencialmente uma equipa de contra-ataque, uma equipa que pressionava em zonas mais recuadas, que assentava a sua forma de jogar numa defesa sólida, e que procurava lançar contra-ataques ou ataques rápidos, daí as dificuldades sentidas no seu reduto frente a equipas mais fechadas, nos jogos a contar para o campeonato nacional.
E alterar o modelo de jogo, a par do sistema, é de facto bem mais complexo. Olhar para o rendimento dos jogos de pré-época em função apenas do sistema de jogo é muito redutor.

Thursday, August 03, 2006

Benfica: que sistema?


O debate está na ordem do dia, qual o sistema táctico mais adequado para o Benfica?
Afirma-se que o 4x4x2 com o meio campo disposto em losango não está a ser assimilado pelos jogadores, foi o próprio Fernando Santos a fazê-lo, mostrando-se disposto a regressar ao sistema que o Benfica teve nas últimas épocas, o 4x3x3 ou a variante do 4x2x3x1.

As opiniões dividem-se, quer na imprensa desportiva, tendo já sido solicitados os pareceres de diversos técnicos sobre a questão, quer também em conversas de café entre os adeptos do clube.

Os sistemas tácticos têm importância, é um facto, pois são eles que definem o modo de colocação dos jogadores no terreno de jogo, e que servem de base ou ponto de partida para os deslocamentos dos jogadores e para a coordenação das respectivas acções individuais e colectivas. A importância dos sistemas é esta, depois há outras coisas tão ou mais importantes que o sistema, como sejam o modelo de jogo, ou seja, a dinâmica que se quer dar a esse sistema, o método de jogo, quer defensivo quer ofensivo e muitos outros aspectos.
Duas equipas podem jogar com o mesmo sistema táctico e apresentarem uma forma de jogar totalmente diferenciada, uma pode apresentar um futebol mais apoiado, passe curto, triangulações ao longo do campo, um ataque posicional ou organizado, a outra pode praticar um futebol mais directo com muitos passes longos a defender à zona e a atacar pode utilizar o método ofensivo do contra-ataque.

Os críticos do 4x4x2 (losango) costumam argumentar que o sistema faz “afunilar” o jogo, que se perdem as referências atacantes por via da não utilização dos corredores laterais. Não é verdade, é certo que o sistema não contempla a utilização de médios ala ou extremos de raiz, mas neste sistema cabe aos laterais terem a disponibilidade e características para poderem descer pelos seus corredores e apoiar as acções ofensivas e também através da mobilidade dos avançados, com um deles ou os dois a descaírem para uma das alas em determinados momentos. Outro aspecto importante deste sistema é o médio mais recuado, é importante que este tenha um bom sentido posicional e que esteja disponível para compensar as descidas dos laterais, é necessário não apenas ter atenção a onde está a bola, mas também ter uma noção dos espaços, no que respeita à cobertura dos mesmos e também às acções de cobertura defensiva dos colegas de equipa. A dinâmica dos médios interiores também tem que ser muita, em termos de mobilidade, de permutas posicionais e de muita posse e circulação de bola, quer entre eles, quer com os laterais.

O plantel do Benfica com a perspectiva de venda de Simão Sabrosa, com a saída de Geovanni e também com o regresso de Rui Costa, pareceu talhado para este sistema, dada a quantidade e qualidade de opções para o meio campo e ataque. Assim também pensou Fernando Santos. Mantendo a estrutura defensiva que se mostrou bem sucedida na época passada e com a profundidade em termos ofensivos que Léo e Nelson imprimem, o losango do meio campo seria constituído da seguinte forma: nos vértices defensivo e ofensivo, nomeadamente e respectivamente, Katsouranis ou Petit e Rui Costa, sendo que Karagounis parece ter características para encaixar em qualquer um dos quatro vértices, ainda há Nuno Assis e também Paulo Jorge, um polivalente que também pode jogar numa faixa. Na frente abundam as soluções, sobretudo com a contratação do internacional Mexicano Kikin Fonseca a juntar-se a Miccolli, Marcel, Mantorras e Nuno Gomes, sendo que este último parece sentir-se muito mais à vontade jogando em sistemas que contemplem dois avançados. Por tudo isto o 4x4x2 (losango) parecia uma opção válida, porém os resultados e sobretudo as exibições, excepção feita ao jogo frente ao Bordéus onde a equipa deu boas indicações, não confirmaram isso levando o treinador Fernando Santos a assumir que regressará ao anterior sistema, o 4x3x3 e sua variante 4x2x3x1.

Vistos os três últimos jogos o que se observou foi uma total incapacidade para fazer circular a bola, a ponto de serem raras as vezes em que esta chegou à área contrária, apenas esporadicamente e por via de passes longos ou bolas paradas, pouca ou nenhuma coordenação da acção colectiva da equipa, uma excessiva fragilidade defensiva, pouca ou nenhuma mobilidade, uma incapacidade de reagir ao pressing dos adversários (bem patente no jogo frente ao Sporting). Em termos de colocação dos jogadores apenas se poderá discutir Petit na posição de médio interior direito, será aquela e talvez a única a considerar-se algo “contra-natura”, quanto ao resto nada a assinalar.

Se o regresso ao sistema das últimas épocas se consumar, a boa notícia seria o não avanço das negociações que viabilizariam a saída de Simão Sabrosa, pois o plantel foi pensado sem ele, e os médios ala/extremos que entraram este ano não são substitutos à altura de Simão, apesar das boas indicações de Manu e Paulo Jorge.
O 4x3x3 puro não parece ser o mais indicado para tirar partido da classe de Rui Costa, pois isso envolveria o jogador em tarefas defensivas que o desgastariam para aquelas em que ele é um exímio executante, portanto tudo indica que a opção será o 4x2x3x1, mantendo a estrutura defensiva, colocando um duplo pivot na primeira linha do meio campo, constituído por Petit e Katsouranis, na segunda linha do meio campo jogariam Manu na direita e Paulo Jorge na esquerda, com Rui Costa no apoio a um único ponta de lança. A questão que se coloca é o desperdício de médios centro como Assis e Karagounis, e sobretudo o desperdício de avançados, aliada à falta de soluções para as alas, para além das já referidas. Uma alternativa seria a colocação de Miccoli numa faixa (algo que não é estranho para o jogador, já que no Perugia jogou diversas vezes nessa posição), Fonseca também tem mobilidade para jogar mais descaído para um dos corredores laterais, é um mero exercício de especulação, pois apenas Fernando Santos terá a palavra decisiva



PS: Na edição de hoje do jornal “A Bola”, José Manuel Delgado avançou com uma alternativa, o 3x4x1x2. De facto também me parece uma solução que potencia a composição do actual plantel, evitando o desperdício de jogadores que o 4x2x3x1 acarreta, no entanto há apenas um pormenor que o autor não refere e que poderá ser um “pormaior” - na impossibilidade de utilizar Nelson e Léo (lesões, cartões), quem ocuparia essas posições tão fulcrais nesse sistema?
A existência de apenas dois laterais no plantel é aliás, para mim, a única debilidade para a utilização do 4x4x2 (losango).

Monday, July 10, 2006

Itália campeã do mundo


Em 1982, o futebol italiano vivia um escândalo relacionado com apostas ilegais, a selecção chegou ao mundial disputado em Espanha e venceu-o, ultrapassando as poderosas selecções do Brasil e da Argentina, agora 24 anos depois, temos o “calciocaos”, e de novo a Itália campeã do mundo.

Sobre a Itália já escrevi algumas coisas, e o jogo de ontem pouco ou nada trouxe de novidade em relação à sua forma de jogar - apenas a primeira repetição de um onze neste mundial por parte de Lippi - em termos de sistema táctico, algo entre o 4x2x3x1 e o 4x4x1x1. A França fiel ao seu sistema (4x2x3x1) e ao seu onze (poucas vezes mudou ao longo dos vários jogos) até foi a equipa que parecia estar mais próxima da vitória, sobretudo ao longo da segunda parte e do prolongamento.

Ambas as equipas se apresentaram extremamente bem organizadas em termos defensivos, nesse sentido a França utilizou uma zona pressionante que procurava bloquear a construção do processo ofensivo da equipa italiana, e de facto, foi uma estratégia eficaz, sobretudo na segunda parte do jogo, em que os italianos raramente conseguiram libertar-se dessa pressão e consequentemente não conseguiam iniciar as transições ofensivas, daí que a estratégia passasse pelos passes longos para Iaquinta e Luca Toni, no entanto os defesas franceses estiveram sempre em grande nível. A Itália defendia à zona, mas mais em contenção, não pressionando em zonas tão adiantadas do terreno de jogo, ao contrário da equipa francesa. Ainda assim, não obstante os maiores sustos terem sido vividos pela defesa italiana, o empate subsistiu até ao final. O resto já se sabe, desta vez os italianos não se deram mal com as grandes penalidades e levam o troféu pela quarta vez, passando a ser o segundo país com maior número de mundiais ganhos, logo atrás do Brasil.

Wednesday, July 05, 2006

Itália venceu o "catenaccio" alemão!


As equipas Italianas e a selecção Italiana nunca se livram do rótulo de “defensivistas”, equipas cínicas e outras coisas afins. Na minha opinião esses rótulos não passam de uma grande falácia, como aliás já tive oportunidade de referir.

O jogo da meia-final frente à selecção Alemã confirmou isso mesmo de forma bastante clara.
Apesar do rigor táctico foi um jogo agradável de seguir, com momentos de futebol bastante interessantes e emocionantes.

A Itália tem alterado o seu sistema táctico ao longo do torneio (4x3x1x2; 4x3x2x1; 4x4x1x1). Frente à Alemanha, a dinâmica da equipa fazia com que, sem bola, se aproximasse de um 4x4x1x1, e com bola de um 4x2x3x1. Na primeira linha do meio campo, mais recuados, Gattuso e Pilro, o primeiro com tarefas de recuperação de bolas, o segundo acumulava essas tarefas com a missão de iniciar os processos ofensivos. Perrota a médio ala esquerdo e Camoranesi no lado contrário tinham a missão de fechar os corredores a defender, e a apoiar o ataque quando a equipa tinha a bola alternando e em alguns casos realizando permutas e compensações com os defesas laterais Zambrotta na direita e Grosso na esquerda. Na frente, Totti a apoiar o ponta de lança Luca Toni. No entanto, apesar de algumas alterações em termos de sistema, a equipa manteve o seu modelo de jogo que assenta em termos gerais, na segurança defensiva (defesa à zona) e no ataque rápido ou contra-ataque.

A Alemanha alterou um pouco a sua forma de jogar, substituindo um médio ala rápido e com elevado pendor ofensivo, por um médio mais de contenção (Borowski). Defendendo também à zona, foi uma equipa que jogou sempre de forma a privilegiar mais a segurança defensiva. Foi raro ver a sua equipa desequilibrada no seu sector mais recuado, deixando lá na frente a dupla de sucesso neste mundial - Klose-Podolski - bastante desapoiada aquando dos contra-ataques, nem os laterais desceram tanto nos seus corredores, como até aqui haviam feito. Sobretudo a partir da segunda parte, foi sempre a Itália que construiu as melhores jogadas e que procurou mais a obtenção do golo. Ambas as equipas, defendiam com muitos jogadores, constituindo duas linhas muito próximas uma da outra à frente da sua grande área, nunca se perderam as referências posicionais nesse sector, no entanto, quando ganhava a bola, a Itália fazia-a circular com muito muita eficiência e chegava com maior facilidade à área contrária. É certo que a capacidade técnica de jogadores como Pilro (um nº 10 convertido a médio defensivo), Perrota e outros também fez a diferença.

O seleccionador alemão ainda lançou dois jogadores mais rápidos para as alas (odonkor e o até então indiscutível Schweinsteiger), a Alemanha ainda acelerou o jogo no seu meio campo, mas os defesas italianos e também Buffon mostraram a sua classe. Para além disso, o apelidado “defensivista” Marcelo Lippi, lançou Del Piero, Iaquinta e Gillardino, mantendo Totti no seu apoio, não alterou muito estruturalmente, mas sendo todos avançados acabou por dar uma dinâmica bastante ofensiva, sendo que a equipa no seu processo ofensivo quase desenhava um 4x3x3.

O resto já se sabe, excelente execução de Pilro no passe para o excelente golo de Grosso, e já com a Alemanha totalmente desequilibrada defensivamente, um contra-ataque puro, com primordial finalização de Del Piero.

Monday, July 03, 2006

Para além do espírito de grupo


Ainda não tinha escrito nada sobre a selecção de Portugal, apenas pelo simples facto de que Luís Freitas Lobo, o analista de serviço no programa da RTP1 "Alemanha 2006", o ter vindo a fazer bem. Muito melhor que eu!

Contudo, queria apenas deixar uma ideia que julgo não ter tido ainda o devido e merecido destaque.

Para além do espírito de grupo e capacidade de sacrifício da equipa que têm sido aspectos muito referidos pela generalidade dos comentadores, e que são de facto evidências bem destacadas, penso que a equipa portuguesa está muito mais madura sob o ponto de vista táctico e também emocional. Sabe quando deve acelerar ou desacelerar o jogo, sabe controlar um jogo, mesmo sem o dominar, só ataca quando entende haver condições para isso, sabe quando deve pressionar mais em cima ou quando deve ficar mais expectante, não corre riscos desnecessários. O jogo com o México foi um bom exemplo, com os jogadores a trocarem a bola no meio campo, sem devaneios ofensivos. Nesse jogo ao ver a nossa equipa jogar lembrei-me do futebol italiano (sei que não é muito do agrado da maioria dos adeptos, mas o futebol moderno está cada vez mais "italianizado", não quero dizer com isto que seja defensivo ao contrário do que muitos dizem...).

Thursday, June 29, 2006

França manda Espanha para casa

Um jogo que bem pode ser apontado como o paradigma daquilo em que se tornou o futebol.
Jogo muito táctico, muito disputado a meio campo. As duas equipas exercendo forte pressão e apostadas em "jogar no erro" do adversário. A frança acabou por ter mais sorte, mas também terá feito por isso!

A equipa espanhola ao mudar o seu figurino táctico acabou por servir os interesses gauleses! Abandonou o vistoso 4x3x3 que até então tinha apresentado, e iniciou o jogo com um 4x4x2 em losango, sendo Raúl o homem do vértice ofensivo e Xavi Alonso o jogador do vértice defensivo, como interiores na direita e esquerda do meio campo, Xavi e Cesc Fabregas. Em teoria seria uma forma de equilibrar a luta do meio campo, pois a França sem bola coloca 5 jogadores nessa zona do terrreno (o sistema táctico preferencial é o 4x2x3x1), mas a enorme experiência de um grupo de jogadores que o mundo do futebol, e de forma mais veemente a arrogante imprensa espanhola, tem teimado em considerar "velhos e acabados", acabou por vir ao de cima.
O sector defensivo espanhol colocava-se em zonas próximas do meio campo, apostando muito na colocação em fora-de-jogo dos jogadores franceses, foi uma estratégia quase sempre bem sucedida (que o diga Henry), porém, nem sempre assim foi, e Ribery aproveitou isso muito bem aquando do golo que marcou e que empatou o jogo.

Na segunda parte, Aragonés voltou ao 4x3x3 que tão bons frutos dera em jogos anteriores, lançando Joaquín e Luís Garcia para as alas, mas, o jogo de paciência dos franceses não se esgotou, bem como a capacidade física e táctica de Makelele e Vieira, e de bola parada a França marcou quando já havia pouco tempo para a inversão do resultado.

Mais uma vez a fúria espanhola saiu curvada perante as expectativas que criara!
A hesitação táctica do seleccionador espanhol terá dado um contributo para que a Espanha tenha abandonado o Mundial 2006. Mas a França foi enorme em termos de superação e de disciplina táctica! E o Brasil que se cuide nos quartos de final...

Thursday, June 22, 2006

O Brasil jogou hoje!


O Brasil jogou hoje pela primeira vez neste mundial, pelo menos aquele Brasil que todos esperavam ver!

E apareceu hoje porque aquela aberração denominada de "quadrado mágico" foi finalmente desmontada!

O Brasil apresentou um dispositivo táctico de 4x2x3x1, com um duplo pivot defensivo - Pernambuncano e Gilberto Silva - sendo que o primeiro era também o elemento que muitas vezes inciava a transição ofensiva, com Káká e Robinho nos corredores laterais trocando permanentemente as posições e Ronaldinho Gaúcho no papel de "playmaker" no apoio ao ponta de lança Ronaldo.

Foi um Brasil que produziu aquilo que toda a gente sempre espera: o elevado pendor ofensivo e o futebol envolvente e espectacular, mas também foi uma equipa mais equilibrada.

O futebol não é apenas táctica, todos sabemos isso, mas este jogo da equipa brasileira provou a importância incontornável dos aspectos tácticos para a definição do jogo da equipa, e também para a potenciação das individualidades que compõem a mesma.

Nos últimos dias, muito se falou da parca prestação do Brasil nos anteriores jogos tendo sido Ronaldo o alvo mais apetecido para a justificação dessas exibições menos conseguidas, pobres até, diria eu!

O facto é que Ronaldo hoje jogou e jogou bem, até marcou dois golos! Bem apoiado por Ronaldinho, Ronaldo pareceu um jogador renascido, sempre a procurar os espaços vazios, combinando bem com os seus companheiros, tabelando e posicionando-se muito bem na área japonesa arrastando as marcações contrárias. O problema nos jogos frente à Croácia e à Austrália não era Ronaldo, não obstante o mesmo não ter tido um bom desempenho, o problema era um sistema táctico que bloqueava o processo ofensivo e desiquilibrava a equipa na transição defensiva.

Laranja (menos) mecânica


Esta selecção holandesa, do que se tem visto neste mundial, não tem a qualidade - no que respeita às suas individualidades - de outras selecções de um passado recente, contudo, a marca distintiva do futebol que pratica está lá e de forma bem evidente! Se o conceito "escola de futebol" precisar de um paradigma, ele é inexoravelmente o futebol holandês.

No jogo com a Ucrânia ofereceu uma boa exibição, já contra a Costa do Marfim, o brilhantismo exibicional não foi tão evidenciado, tendo mesmo na segunda parte desse jogo, passado por grandes dificuldades impostas pela selecção africana. O jogo com a Argentina foi um jogo "suspeito", pois ficou-se com a sensação que ambas as equipas, tendo em conta as circunstâncias, jogaram qb, não obstante o ascendente do jogo ter pertencido à selecção argentina.

Em termos técnico-tácticos, a equipa mantém-se fiel ao estilo que caracteriza o futebol holandês, 4x3x3 puro, sempre com um acentuado e forte jogo exterior, procurando jogar com largura e profundidade. Muita posse e circulação de bola, pressing alto, linha defensiva adiantada no terreno e ataque organizado.

Há no entanto alguns pontos fracos que merecem nota de destaque: ao contrário de outras brilhantes equipas que todos os adeptos de futebol recordarão, esta equipa não apresenta uma forte dinâmica de jogo. Os três avançados (Robben na esquerda, V.Persie na direita e Nistelroy ao centro) raramente ou quase nunca trocam de posição, permanecem o jogo todo ocupando os mesmos espaços, a mobilidade também não é muita, apenas aquela que Robben (o jogador de maior qualidade desta equipa) promove, Nistelroy não atravessa um bom momento.
No meio campo parece faltar alguma criatividade, não parecendo existir grande ligação com o sector avançado.

Monday, June 19, 2006

La Revancha del Tango

Mais uma vez a Argentina...


O resultado e a exibição frente à selecção da Sérvia e Montenegro falam por si, no entanto, mais uma vez há que realçar a forma como esta equipa aborda os seus jogos.
É difícil definir qual o sistema táctico utilizado no jogo com a Sérvia. Como já foi dito anteriormente, o sistema (referências posicionais dos onze jogadores) é totalmente subvertido pela dinâmica da equipa, ou seja, o que caracteriza a abordagem do jogo da equipa argentina é o seu modelo e princípios de jogo, tendo esta ideia ficado ainda mais evidente neste segundo jogo.

Em diferentes situações podia observar-se diferentes disposições da equipa em campo (3x5x2; 4x3x3; 4x4x2). A dinâmica e mobilidade da equipa baralhava qualquer tentativa de análise nesse sentido, tendo-se assistido a um verdadeiro "carrossel" que baralhou e "esmagou" a selecção Sérvia.













A defesa era composta por uma linha de quatro jogadores, não obstante as constantes subidas pela faixa, do lateral esquerdo Sorín! No meio campo, Mascherano com missões exclusivamente defensivas e Lucho (Cambiasso depois no seu lugar), partilhando essa missão com o seu colega de sector, mas ocupando-se também de fazer o transporte da bola para o início do processo ofensivo - até aqui pouco ou nada de novo face ao jogo com a Costa do Marfim - Riquelme a pautar o ataque, depois na frente pôde observar-se Saviola e Crespo, inúmeras vezes a encostarem às faixas, quando a bola vinha sendo jogada pelo seu lado (o direito), Saviola encostava nesse corredor, enquanto Crespo flectia para o meio, e vice-versa, Maxi Rodriguez aparecia no lado esquerdo, sendo que quando tinha a bola e arrancava com ela, Crespo e Saviola apareciam na zona central. Saviola, quando a equipa estava sem bola fechava o lado direito a defender. Aliás, tendo que destacar algum jogador no meio de tão fantástica exibição colectiva, teria que ser, na minha perspectiva, o pequeno genial Saviola que teve papel activo nos 3 primeiros golos! No final ainda saltaram do banco mais dois geniais, Tévez e Messi, também sempre em permanente movimento, ora apareciam pela esquerda, ora pela direita, e sempre a fazer estragos!

Até agora, foi a selecção que mais encantou neste Mundial!

Wednesday, June 14, 2006

Mundial 2006 - 3 destaques





Vistas já quase todas as selecções presentes neste campeonato do mundo (falta apenas a Tunísia e a Arábia Saudita jogarem entre si), fica-se já com a percepção de quais as equipas mais fortes, aquelas que apresentaram uma maior qualidade ao nível do futebol praticado e porventura, até aventurar-mo-nos em adiantar potenciais favoritos à conquista do título - agora já com alguns fundamentos, ainda que, como se sabe, no âmbito deste desporto isso seja de um relativismo muito grande!

Uma das selecções que gostaria de destacar, é a selecção Argentina.
Se há casos em que a dinâmica de uma equipa se sobrepõe ao sistema táctico, a selecção Argentina é um dos expoentes máximos dessa afirmação! Pode dizer-se que a Argentina utiliza dois sistemas - sem bola o sistema assenta num 4x3x1x2, com bola e a atacar, o sistema desdobra-se num 3x2x3x2 - sendo o lateral esquerdo Sorín, e graças à sua propensão ofensiva, a peça chave para incutir esta dinâmica, subindo até ao meio campo e participando muitas vezes das movimentações ofensivas já perto da área adversária! Importantes também são os dois médios de contenção, Cambiasso e Mascherano, o segundo posicionado à frente dos centrais, com tarefas, sobretudo, de recuperação, quanto a Cambiasso, para além da partilha da missão mais defensiva com Mascherano, também se ocupa do transporte de bola para iniciar o processo ofensivo da equipa! Na frente, um nº 10 clássico (Riquelme) que tem a missão de construir as jogadas de finalização dos dois avançados que estão à sua frente, Saviola e Crespo, e pelo que se viu do jogo frente à Costa do Marfim, fê-lo com grande precisão e eficácia - o passe para Saviola no lance do golo é uma obra prima! As subidas de Sorín são assim compensadas por Mascherano, mas também pelo facto de do lado direito da defesa jogar agora Burdisso que é central de raíz, este pelo facto de subir menos no terreno, acaba por permanecer junto dos centrais quando a equipa ataca.
Esta equipa tem ainda no banco, jogadores como Messi, Tévez, Aimar, entre outros de reconhecida qualidade acima da média.

Outra selecção a destacar é a Italiana, e sobre esta importa realçar o seguinte: aquela ideia de que as equipas italianas, e a própria selecção, são defensivas e que como tal apresentam sempre um futebol aborrecido e entediante é uma verdadeira falácia, sobretudo para quem viu jogar a Itália neste campeonato do mundo. Uma coisa é o rigor táctico, e isso é ponto assente que constitui imagem de marca do futebol italiano, outra coisa é futebol defensivo.
A Itália apresentou um sistema de 4x3x1x2, de onde se destaca o trio da primeira linha do meio campo, composto por Perrota, De Rossi e Pilro, este trio incutiu uma dinâmica muito importante quer a nível de transição ofensiva, quer a nível de transição defensiva. Os três jogadores desdobraram-se inúmeras vezes em tarefas de recuperação e tarefas de construção de jogadas de ataque - logo que a bola era recuperada a equipa iniciava jogadas de ataque rápido muito bem desenhadas. A circulação de bola foi também muito bem conseguida por parte da equipa! Outro factor a destacar na equipa italiana são os seus homens da frente - Luca Toni - possante a jogar mais em cunha entre os centrais, Gillardino mais móvel e procurando outras zonas do campo para partir em direcção à baliza e ainda outro ponta de lança possante que entrou na segunda parte para o lugar de Gillardino - Vicenzo Iaquinta que assim fez dupla com Toni - uma dupla de avançados temível a fazer recordar as velhas duplas de pontas de lança fortes físicamente, que hoje em dia raramente se vêem no futebol.

Por último, a conhecida "fúria espanhola", pelo que se viu no jogo frente à selecção Ucraniana, parece estar empenhada em afastar o velho estigma de selecção que tendo muito valor nunca consegue provar esse mesmo valor em fases finais de Europeus ou Mundiais!

Uma novidade em termos de sistema táctico, um 4x3x3, que apresentou uma impressionante dinâmica em termos de processo ofensivo, sobretudo ao nível da enorme mobilidade dos três jogadores mais adiantados (Villa, Luís Garcia e Fernando Torres)! A constante permuta posicional efectuada pelos três jogadores da frente provocou o desiquilíbrio permanente do sector defensivo da equipa ucraniana.
A este propósito deve referir-se que há quem defenda que o 4x3x3 é um sistema que acaba por ser algo previsível, pois o facto de existirem referências posicionais relativamente destinadas a um lugar específico leva a que as tarefas de cobertura defensiva e marcação sejam mais fáceis de desempenhar, no entanto, essa teoria desmonta-se facilmente, através da mobilidade e da permuta posicional - lição que a Espanha deu frente à Ucrânia .
O trio do meio campo, composto por Xavi Alonso, Marcos Senna e Xavi foi também determinante na exibição e resultado que a selecção espanhola efectuou.

E atente-se que no banco, ficaram nomes como Cesc Fabregas, Reyes, Marchena, Joaquín, entre outros.