Saturday, May 30, 2009
Leituras
Tenho com o Barça uma estranha relação. Cresci a admirar o Dream Team, a delirar com os golos deliciosos de Romário e com Laudrup a olhar para um lado e a dar para o outro. Mas mal este acabou, virei-me para o Madrid de Raúl para chatear o meu pai e por lá fiquei. Hoje, mesmo preferindo o Madrid ao Barça, é-me humanamente impossível não admirar a orquestra blaugrana. Uma equipa que ameça seriamente tornar-se uma das míticas.Apesar da globalização, as equipas mantêm uma certa identidade. Não falo apenas do Athletic de Bilbao (esse mostra o dedo do meio à globalização), falo de várias: o Milan é cínico, a Juve chega a ser velhaca. O Liverpool é mítico e o Real Madrid monstruoso. Pensamos no Manchester United e vem-nos um vendaval à cabeça, o Bayern de Munique um exército. E quando pensamos no Barça?O Barça de Pep Guardiola (um jogador tão brutal que Valdano dizia que ninguém o devia tratar por tu em campo) é uma delícia muito difícil de descrever e está tão afinado que dói. A equipa que faz coisas que, como escrevi sobre a finta de Messi no Calderón, dão vontade de virar a cara por pudor. Um pudor que o Barça já não tem. Em certos momentos, a humilhação do rival chega a dar pena. Acabam de joelhos, cansados, desmoralizados, esmagados.A bola parece não parar. Minha, tua, tua, minha. Passe longo, passe curto. Um, dois, três e a equipa mexe-se como num tango. Divertem-se todos, disfrutam. Tudo começa em Xavi, um maestro que - passe a heresia - passou o mestre Pep que se senta num banco. Refinou o futebol a dois toques que o mítico 4 tanto amava: parar e receber. A melhor solução está sempre ali: perto ou longe, depressa ou devagar, o arranque fatal ou o passe para trás. A bola sempre com ele, a orquestra a girar. Os rivais desesperam. Depois, há Iniesta, a centopeia (expressão de Jorge Valdano). Um anjo com a bola nos pés. Siamês de Xavi, é como se fosse uma versão mais mexida, mais driblador. A maneira como ontem arrancou entre Carrick e Anderson para o primeiro golo é de uma elegância artística. Repare-se na diferença: Cristiano Ronaldo quando arranca é em força, tipo vulcão. Iniesta ontem pareceu-me que voava.
Por fim destaco, obviamente, Leo Messi. A pulga que nos parece mesmo ter genes de, ele mesmo, Maradona. A bola colada ao pé esquerdo como por encanto, a anca que finta repetidamente, os arranques imparáveis, como se fintasse os buracos da rua onde jogava quando era pequeno e depois tentasse rematar entre baldes do lixo. Messi é o menino da rua que, como li nalgum lado, paarece-nos que chega ao campo de boné para trás e pergunta timidamente se pode jogar.
Mas mais do que isso, este Barcelona revolucionou o futebol. Entregou-o de novo aos artistas. E até a mim, um defensivista, me conquistaram. Honra seja feita a Pep e a Luis Aragonés (que descobriu no Europeu que se desse um trinco - e, logo, a liberdade - a Xavi e a Iniesta dava à equipa a hipótese de poder mesmo passar os 90 minutos com a bola nos pés). O Barcelona que vi esta época fez jus à cidade. Não à parte turística, cheia de ingleses bebâdos. Fez jus aos bares escondidos no Bairro Gótico, onde se fala em catalão de liberdade.
Ver este Barça jogar emociona-me mesmo, como me emocionei a ler o "Por quem os sinos dobram". Arrepia-me ver aquela equipa baixinha, em Roma, trocar a bola rente à relva como se ensina aos infantis. E a alegria com que toda a gente se mexe e descobre um espaço e passa e arranca e a maneira como todos disfrutam. Ontem, em Roma, ganharam os bons. Os príncipes, os artistas. Aqueles a quem normalmente se reservam as vitórias morais. O Manchester, mais alto e mais forte, talvez lhes ganhasse todas as provas de atletismo. Mas ontem, a beleza do futebol - aquela que Nélson Rodrigues descreveu antes de todos os outros e Valdano continuou - revelou-se toda, num jogo que sintetizou uma época que será sempre falada no Bairro Gótico.
Este Barça não é uma equipa, é uma orquestra. Um sinfonia, um hino, arte. Quando Xavi lançou aquela bola celestial para Messi, percebi logo o lance e arrepiei-me. Arrepiei-me mesmo, como se um calafrio me passasse. A bola é divina, é perfeita, há um momento - como diz o jornalista do As - em que até parece que se atrasa para chegar à cabeça de Messi, como se tudo fosse combinado.Não sei se este Barça da bola no chão e tabelas e passes vai durar muito. Se num futebol cada vez mais fodido pela globalização, cada vez mais rápido a consumir-se, se vai durar o suficiente para marcar a década. Mas a mim, que cresci com o jogo e que me apaixono por toda a vida, toda a história que ali se faz, já me marcou.
Foi como se me apaixonasse. Este Barça é o Esplendor na Relva.
Diário de um ultra, 24 de baril de 2009.
Thursday, May 28, 2009
Com naturalidade...
Desilusão e confirmação. Foram as duas realidades que resultaram deste jogo. A desilusão de não vermos um jogo equilibrado, tal como nos tinha vindo a ser anunciando. A confirmação é a de que, actualmente, há a Premiere, a liga espanhola e italiana, e depois há o Barça…Qualificar o futebol praticado por esta equipa do Barcelona, implica um risco muito provável de incorrer em lugares-comuns, já que o chorrilho de elogios tem sido uma constante ao longo da época. Um dos epítetos mais recorrentes que tem sido imputado ao futebol blaugrana, é o do futebol romântico, em oposição ao pragmatismo e resultadismo, como por exemplo, aquele que o Chelsea revelou nos confrontos das meias-finais. No entanto, parece-me que este futebol está muito para além do romantismo e de todas as outras coisas que lhe têm sido atribuídas. Aquilo é a essência do futebol. Está lá tudo, os deslocamentos, as coberturas ofensivas e defensivas, as compensações, as combinações tácticas e todas as acções e princípios elementares e basilares da organização do jogo. Portanto, este Barcelona ganhou com naturalidade a competição, e as restantes em que esteve envolvido. Com muita naturalidade.
Tuesday, May 12, 2009
O verdadeiro Código Quique
Ser filho de Carmen Flores, sobrinho de Lola Flores e afilhado de Di Stéfano, deu uma ajuda importante na afirmação de um debutante treinador espanhol chamado Enrique Sánchez Flores. Antes de abraçar a carreira de treinador, desenvolveu diversas colaborações com a comunicação social, o que veio cimentar, ainda mais, a relação profícua que Quique mantém com aquilo que se convencionou chamar de “quarto poder”.Duas temporadas no Getafe com uma subida ao escalão maior e na época seguinte, manutenção da equipa nesse escalão. De seguida, o Valência, onde consegue a qualificação para a Liga dos Campeões e atinge os quartos-de-final da prova. Estes feitos razoáveis serviram para colocar Quique no patamar dos treinadores de sucesso, tendo mesmo chegado a ser comparado, inúmeras vezes, com José Mourinho!
Chega a vez do Benfica. Um clube lendário mas que vive em depressão profunda há uns valentes anos. Mais que um grande desafio, é uma oportunidade de ouro para o espanhol atingir, com fundamento, esse patamar do sucesso. No entanto, Quique não abraçou essa perspectiva.
Do ponto de vista táctico, Quique insistiu teimosamente num sistema e modelo de jogo absolutamente desajustados às características do futebol português e ao plantel de que dispunha. Para manter essa sua cruzada, o espanhol foi sacrificando jogadores nucleares. Sobre Léo, mantém-se o mistério de perceber o que teria ele que aprender com Jorge Ribeiro que entretanto também passou, num ápice, de tacticamente culto a jogador descartável. David Luiz acabou por ser o remendo inevitável, o que acabou por, não obstante as cavalgadas ofensivas dos últimos jogos, debilitar a organização defensiva da equipa e atrofiar o desenvolvimento de um defesa central com reconhecido potencial…
Rúben Amorim, já se sabe, um dos melhores para ocupar a zona central do meio-campo, acabou por servir de tampão para atenuar os desequilíbrios potenciados pelo 4-4-2 de Quique. A parca utilização de Óscar Cardozo, as dúvidas permanentes relativamente à constituição da dupla a utilizar na zona central do meio-campo e muitos outros aspectos marcaram esta época de equívocos técnico-tácticos de Enrique Sánchez Flores no clube da Luz. Como resultado, o futebol produzido pela equipa foi sempre qualquer coisa abaixo do sofrível. Isto foi o que toda a gente viu durante a temporada. No entanto parece que há resultados invisíveis, segundo o treinador…
O espanhol teve um dos melhores plantéis da última década, teve sempre a benevolência da comunicação social e do Terceiro Anel, algo de que nem todos os que têm passado pelo clube se podem gabar. Ainda hoje, há adeptos a manifestarem o desejo da sua continuidade em nome de um conceito muito estranho de estabilidade…Apesar disso tudo, o afilhado de Di Stéfano nunca conseguiu perceber o "código" de Tulipa, Domingos Paciência ou Manuel Cajuda, e o pior de tudo é que, facilmente se percebe, que nem sequer se esforçou para o conseguir.
PS: Sei perfeitamente que os problemas do Sport Lisboa e Benfica não se esgotam na questão do treinador, no entanto, uma coisa não invalida a outra. Os problemas estruturais não invalidam a notória incompetência de Quique Flores.
Saturday, May 09, 2009
Começou o Brasileirão
Filipe, Vai começar o campeonato da paixão!, Jogo directo
Subscrevo totalmente esta opinião relativamente ao campeonato brasileiro. Não o definiria melhor. Esta temporada o Brasileirão conta ainda com o aliciante de podermos ver três grandes craques que a ele regressaram: Ronaldo no Corinthians (que já se fartou de dar que falar durante o Paulistão); Fred no Fluminense, e Adriano, aquele que trocou o glamour de Milão pela rudeza da favela, e que afinal, soube-se agora, também queria trocar o Giuseppe Meazza pela Gávea...
Para além destes três enormes nomes do futebol mundial, há ainda os jovens valores a despontar, tais como Maicosuel do Botafogo, Neymar do Santos e Keirrison do Palmeiras, entre muitos outros.
Sobre o campeonato brasileiro recaiem alguns mitos, como o de que o futebol praticado é lento, individualista, entre outras coisas. Paradoxalmente, a Europa olha de forma sobranceira para o futebol jogado em terras de Vera Cruz, sem no entanto se cansar de lhe subtrair, ano após ano, todos os Patos, Kákás e Robinhos que por lá vão surgindo…
Para além de que quando se fala de futebol brasileiro é necessário ter em atenção que ele assume estilos diferentes em função do território onde é jogado. Por exemplo, a ginga do futebol carioca nada tem a ver com o jogo mais musculado de Rio Grande do Sul.
Eu, pessoalmente, também recomendo este campeonato. Tal como o Filipe do Jogo Directo, também só não verei o que não puder.
Thursday, May 07, 2009
Sobre o Chelsea-Barcelona
Fragilizados por ausências de peso, os blaugrana foram fiéis a si próprios. Jogaram como jogam sempre. Essa é a sua grande marca distintiva. Não fizeram muitos remates à baliza, dizem os mais radicais compradores de ilusões. Pois não. Mas desde quando é que o Barcelona é equipa que remata muito à baliza? Os remates de meia distância e os cruzamentos para a área são acções que não integram o manual de princípios desta equipa. Ao invés, é em ataque posicional, com passes curtos e tabelas que procuram desequilibrar o dispositivo defensivo dos adversários. Ora, isso, nestes dois jogos foi contrariado com sucesso pela equipa de Londres. As insónias de Hiddink deram frutos e ontem, o meio-campo catalão carecido de Iniesta que estava deslocado para outras paragens, progredia com a bola até á área adversária, contudo o último passe não saía. Esbarrava na extraordinária organização defensiva do adversário. Até ao minuto 93…
Chegou á final a melhor equipa no conjunto dos dois jogos. A equipa que foi igual a si própria e que jogou o futebol que joga sempre. Ficou pelo caminho aquela que, sobretudo num dos jogos, apenas procurou anular o seu adversário.
Sobre a arbitragem…o que se tem dito é manifestamente um exagero. Existirão dois lances passíveis de terem sido mal ajuizados com prejuízo dos londrinos, tal como Abidal também foi mal expulso, e já agora, tal como em Barcelona, também houve vários lances mal ajuizados e que prejudicaram os catalães – um deles provocado por Bosingwa…
Wednesday, May 06, 2009
Insónias
Guus Hiddink, citado por vários jornais ingleses
Monday, May 04, 2009
Leituras
Los centrales del Madrid son buenos si tienen una marca de referencia. En cuanto la perdieron, se sintieron incómodos. Bien pensado por parte de Guardiola y muy bien ejecutado por sus futbolistas..."
Johan Cruyff, Guardiola fue fiel a sí mismo, Las Claves de Johan Cruyff
Saturday, May 02, 2009
Estabilidade?!
Estabilidade assente num equívoco? Não, obrigado!
Wednesday, April 29, 2009
Meias-finais da Champions League - Preâmbulo
Thursday, April 16, 2009
Belenenses - Declínio de um histórico *
Se falarmos com um estrangeiro sobre o futebol lisboeta, e se o nosso interlocutor for minimamente informado acerca do desporto-rei, seguramente que os nomes de Benfica e Sporting serão pronunciados, e pouco mais. No entanto, lá para os lados de Belém – onde, por acaso, o futebol até recebeu o seu primeiro forte impulso organizativo – habita um clube que também já fez parte da elite alfacinha. Um clube que chegou a ser campeão nacional, que foi orientado por grandes treinadores, como Fernando Riera, Helenio Herrera ou Otto Glória, que teve jogadores lendários, como Matateu, Vicente e Pepe, mas que, apesar do peso histórico, tem vindo a reduzir o seu estatuto no futebol português.O enfraquecimento gradual do Clube Futebol Os Belenenses deve-se, em boa parte, à complacência e má politica dos sucessivos dirigentes que têm passado pelo emblema do Restelo. O clube parece carregar uma cruz, que ironicamente faz parte do seu emblema.
Esta época é um exemplo claro destas dificuldades, com a equipa a agonizar no fundo da tabela classificativa. E o mais paradoxal é o facto de ter vindo de duas temporadas extraordinárias, onde, inclusive, regressou às competições europeias e marcou presença numa final da Taça de Portugal. O problema é que este ano, para além do abandono do treinador Jorge Jesus, saíram do plantel 19 jogadores, tendo entrado 17 novos atletas, quase todos oriundos do futebol brasileiro – muitos vindos de divisões secundárias, outros das reservas de alguns clubes do Brasileirão.
Face a esta profunda transformação, o futebol da equipa afigurou-se pouco consistente e provocou os maus resultados sofridos nas primeiras jornadas. O treinador brasileiro Casemiro Mior acabou por ser dispensado, sem grande surpresa, tendo entrado para o seu lugar, o já experimentado nestas lides, Jaime Pacheco. O treinador nortenho de imediato começou a trabalhar na construção de uma equipa à sua imagem, recorrendo ao mercado de Inverno para realizar os necessários ajustes nesse sentido. O problema é que enquanto este complicado empreendimento foi ganhando forma, o campeonato não parou, e com isso o clube azul foi perdendo terreno até acabar por se fixar nas sufocantes posições do fundo da tabela. Nesta altura, o espectro da quarta descida de divisão da sua história é uma constante no dia-a-dia do clube.
Princípio da ruína
A queda do Belenenses tem início ainda na década de 80, com a primeira descida de divisão na história do clube. O desastre ocorreu na temporada 81/82 durante a qual, a equipa conheceu sete treinadores, entre os quais Artur Jorge e Nelo Vingada. O inferno da segunda divisão durou duas épocas.
O abandonado campo das Salésias, antiga casa do Belenenses, assemelha-se à perda de importância que o clube tem vindo a sofrer no futebol nacional.
A seguir a esta tempestade, porém, veio uma agradável bonança. O clube reergueu-se e atingiu boas classificações, como um brilhante 3.º lugar em 87/88. Foram também atingidas duas finais do Jamor, sendo que numa das vezes, na época 88/89, o troféu foi mesmo conquistado pelos azuis – o último grande troféu oficial conquistado (vitória frente ao Benfica por 2-1). Também nesse período, as noites europeias voltaram a animar o Estádio do Restelo, com particular destaque para uma eliminatória com o Barcelona que terá promovido, talvez, a última grande enchente. Neste Belenenses, orientado por Marinho Peres, sobressaíam jogadores como Mladenov, Sobrinho, José António, Chiquinho Conde, entre outros. Findo este período, porém, o clube voltaria a cair nas profundezas da Liga de Honra em mais duas ocasiões (90/91 e 97/98). O regresso às competições europeias e a uma final da Taça de Portugal aconteceu apenas recentemente, com Jorge Jesus. Pelo meio houve uma época (95/96) em que, pela mão de João Alves – com jogadores como Ivkovic, Fernando Mendes, Tulipa, Giovanella, Mauro Airez, entre outros – os azuis mantiveram, com o V. Guimarães, uma luta árdua por um lugar de acesso à Europa. Levaram a melhor os homens do Minho, contudo essa equipa garantiu um lugar no cantinho das boas memórias dos adeptos belenenses.
Na actualidade os adeptos do clube continuam a reclamar o estatuto de quarto grande do futebol português, mas apenas a história consegue legitimar tal posto, já que no campo esse estatuto tem sido disputado de forma mais justificada por V. Guimarães, Braga e Boavista (antes da recente queda ao segundo escalão).
O declínio competitivo do futebol do Belenenses, associado ao amadorismo e aventureirismo de muitas das suas direcções, e também às questões relacionadas com o envelhecimento demográfico da população lisboeta, tem levado ao contínuo afastamento dos adeptos do clube – algo que é bem visível de 15 em 15 dias nas despidas bancadas do Estádio do Restelo. O clube de Belém corre o risco de se transformar num resíduo simbólico e histórico, tal como o seu primeiro campo de futebol – as abandonadas e degradadas Salésias.
* Texto publicado em 
Monday, April 13, 2009
Corinthians - Uma proposta táctica diferente para conquistar o Paulistão

O jogo de ontem cumpriu com uma das regras basilares do actual futebol brasileiro – muita luta a meio campo, alicerçada na rigidez das marcações individuais. No entanto, do lado do "timão" havia qualquer coisa de pouco habitual no futebol brasileiro dos três “zagueiros”. Mano Menezes estruturou – à semelhança do que tem feito noutros jogos – a sua equipa num sistema de 4-3-3 que, pressionando alto, obrigou o tradicional 3-5-2 do S. Paulo a transformar-se num expectante 5-3-2, pois a permanente procura da profundidade pelos corredores laterais, através da velocidade de Dentinho e Jorge Henrique, obrigava os laterais são-paulinos a terem mais preocupações defensivas do que seria habitual. A equipa do Parque São Jorge teve assim um domínio claro do jogo face a um S. Paulo que ficava assim condicionado a procurar surpreender em contra-ataque ou através de bolas paradas.
Tuesday, April 07, 2009
Breves notas sobre o Manchester United - FC Porto
2) Fernando foi, do ponto de vista individual, a unidade em evidente destaque pela positiva.
3) O mais recente ídolo da imprensa lusa conseguiu uma soma de disparates absolutamente notável. Quando mais deu nas vistas, foi quando manifestou a sua patética tendência mártir, que nestes palcos não parece ser muito bem sucedida...
4) Ferguson, agora na recta final da sua carreira, optou por dar um valente pontapé na filosofia que sempre defendeu e que pôs em prática no clube, para se render ao pragmatismo, resultadismo, defensivismo, ou será mesmo cobardia? Herança de Queiroz?
Wednesday, April 01, 2009
ANUÁRIO FUTEBOL MUNDIAL 2008/09 (Rui Malheiro, QuidNovi, 2009).

O futebol português visto à lupa: Liga Sagres, Liga Vitalis, II Divisão, Taça de Portugal, Taça da Liga, Liga Intercalar e Supertaça. A actividade das Selecções nacionais: dos sub-15 aos AA. Os campeonatos de mais de 100 países. Tudo sobre o futebol inglês, italiano, espanhol, francês, alemão, brasileiro e argentino. As provas internacionais de clubes e selecções. O perfil de cerca de 1000 jogadores de todo o Mundo ao longo de 816 páginas.
"Estou feliz por ver um sonho realizado e contente por uma obra tão rica aparecer em Portugal. É um documento fantástico, de enorme valor, que resulta de uma pesquisa exaustiva e que demonstra a dedicação ao futebol por parte do autor. Trata-se de uma obra que tem um largo campo de interesse. Para mim, como treinador, é uma ferramenta de consulta extremamente útil, como também não tenho dúvidas de que o será para os diversos agentes desportivos - clubes, treinadores, jogadores, jornalistas e adeptos -, que passam a ter em mãos um vasto documento com informação organizada sobre os intervenientes dos principais campeonatos".
Paulo Sousa
"À estatística, comum aos dois almanaques internacionais mais conhecidos, decidimos juntar a táctica, a análise e a prospecção de jogadores, com o objectivo de enriquecer a obra, conferindo-lhe um carácter único".
Rui Malheiro
Decorreu ontem a cerimónia de lançamento desta magnífica obra e eu tive o privilégio de ter estado presente. Para além de passar a ter este importante documento na minha estante, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o seu autor - alguém por quem já nutria particular admiração, por via de muitos dos seus trabalhos, disponíveis online, tais como o mítico terceiro anel e o playmaker.
Monday, March 30, 2009
Barcelona – O último refúgio do futebol-arte *
«Todos os treinadores falam sobre movimento, sobre correr muito. Eu digo que não é necessário correr tanto. O futebol é um jogo que se joga com o cérebro. Deves estar no sítio certo, no momento certo, nem demasiado cedo, nem demasiado tarde.»Johan Cruijff
* Texto publicado em

Sunday, March 29, 2009
Tuesday, March 24, 2009
Leituras
O que mais incomoda Soares Franco não é o penaltie assinalado por Lucílio Baptista. Soares Franco está realmente furioso é por ter aceite fazer parte da direcção da Liga e isso não se ter transformado em benefício do Sporting na arbitragem. Só assim se justifica a saída dos Leões daquele órgão directivo. E não adianta vir agora dizer que há várias razões pois, na verdade, quando se assistiu ao triste espectáculo que constituiu o processo Apito Final e a forma como foi conduzido no seio da Liga e até da Federação, ninguém ouviu Soares Franco queixar-se de arbitrariedades e injustiças. A dramatização para justificar uma derrota que nem chega a ser injusta (apesar do penaltie) pode servir para que esqueçamos momentaneamente as vergonhosas cenas de indisciplina que os jogadores do Sporting protagonizam desde o início da pré-época, mas não nos farão esquecer a ausência de posição de Soares Franco em todas elas, atirando para cima do seu conflituoso treinador sucessivos problemas que foi sendo incapaz de resolver. Aparecer agora aos gritos, como fazer parte da direcção da Liga, não vai devolver vitórias ao Sporting e esse é o erro estratégico de Soares Franco. Ao contrário do que possa parecer, ele ainda não percebeu que os jogos e os campeonatos se ganham no campo. E é por isso que vai continuar a perder.
Publicada por Nuno Nogueira Santos em A outra varinha mágica
E sobre isto, sportinguistas, o que dizem?
Vukcevic puxa calções de Maxi Pereira
Enviado por nsalta
Monday, March 23, 2009
O maior erro de arbitragem
Patético, hilariante, tudo o que se tem dito e escrito sobre a arbitragem de Lucílio Baptista na final da Taça da Liga.Sempre que o Sporting Clube de Portugal é prejudicado com uma decisão de arbitragem, cai o Carmo e a Trindade. Já se sabe. É assim há muitos anos, desde o início da história do clube.
O árbitro errou ao assinalar a grande penalidade? É óbvio que sim. Tal como errou ao não mandar Polga tomar banho mais cedo, e mais ainda, em deixar que alguém mais especializado em artes marciais, provocações e teatro do que futebol, ficasse em campo até ao final do jogo. Mas é claro que o lance que merecerá toda a espécie de crítica será aquele que prejudicou o clube de Alvalade. E o pior de tudo é que a coisa ocorreu num jogo frente ao Sport Lisboa e Benfica e, pior ainda, valia uma taça.
Um pouco de história
O clube que foi fundado com o propósito de roubar o protagonismo que o Benfica vinha ganhando no futebol lisboeta, depois de aliciar e recrutar os seus melhores praticantes, cedo se iniciou em comportamentos que redundavam numa espécie de esquizofrenia paranóide face ao rival. Não havia um confronto vencido pelos encarnados que não merecesse acesa contestação por parte do clube do Visconde de Alvalade.
Logo ao quarto confronto entre Benfica e Sporting, após um penalty pretensamente mal assinalado por um árbitro inglês e cuja conversão deu a vitória aos encarnados, os leões indignam-se e desistem do campeonato, isso apesar da atitude cavalheiresca do Benfica que declina o direito ao golo e consequentemente recusa a legitimidade da vitória.
Mas há muitos outros episódios em que os sportinguistas, sentindo-se injustiçados, optam pelas faltas de comparência, ou pelos abandonos de campo a meio dos jogos.
Claro que quando as decisões polémicas eram em seu benefício, os procedimentos não coincidiam propriamente com este padrão de comportamento, bem pelo contrário. Há um episódio pitoresco, ocorrido num encontro frente ao Cruz Negra, em que a equipa sportinguista obtém um golo na sequência de uma tabela com uma das árvores plantadas em redor do recinto de jogo. A comunicação que o clube mais tarde produziu em resposta a toda a polémica e discussão que naturalmente este lance provocou, foi a seguinte: «1º - O referee não apitou e, como tal, o jogo devia continuar; 2º - Em igualdade de circunstâncias, quando a bola bateu nas árvores do lado do campo, caindo na volta dentro do jogo, não era considerada fora.» *
De volta ao presente
Há, portanto, como que uma idiossincrasia genética na instituição que explica toda a bizarria a que se assiste desde Sábado passado. A tese, que está a ser veiculada por muitos, de que o árbitro auxiliar teria informado Lucílio de que não era penalty, numa tentativa óbvia de produzir a maior suspeição possível – transformar o erro involuntário em voluntário – chega a ser risível.
Alguém se recorda das reacções que os responsáveis leoninos tiveram aquando daquele penalty assinalado na sequência de um autêntico mergulho de Silva na relva da Luz, na época 2003-2004? Ou daquele que terá sido o penalty mais grotesco da história do futebol português relativamente a uma pretensa falta sobre Jardel na época 2001-2002?
Os responsáveis leoninos esquecem-se até de alguns incidentes engraçados, ocorridos durante o percurso da equipa até à final algarvia, como aquele golo obtido num fora-de-jogo de quilómetros em Vila do Conde.
Por último, há uma reflexão pertinente a fazer. Lucílio Baptista é um daqueles árbitros que se formou à sombra daquilo a que alguns (sportinguistas também) chamaram de “sistema”, algo que tem merecido o maior alheamento estratégico por parte dos actuais dirigentes. Portanto, há em tudo isto, uma inevitável e profunda ironia.
Homero Serpa, História do Desporto em Portugal – Do Século XIX à Primeira Guerra Mundial, Instituto Piaget, Lisboa, 2007
Friday, March 13, 2009
Hegemonia do futebol inglês!?
Segundo ano consecutivo em que o big four integra as 8 equipas finalistas da principal prova de clubes do velho continente. Muitos têm-se referido ao facto como a hegemonia do futebol inglês. No entanto, há uma questão que se impõe. Os quatro candidatos ao título inglês podem ser representantes de uma determinada ideia de futebol inglês? Apenas na medida em que são clubes que nasceram em terras de Sua Majestade e que integram a liga inglesa. Jogadores ingleses são raros nas quatro equipas. Passa-se o mesmo nas principais equipas das outras ligas, é certo. È a natural consequência de uma lei que se impunha no mundo do futebol, para que as coisas se harmonizassem com a sociedade globalizante que se vinha formando. Como tal, hoje em dia, faz pouco sentido falar em estilos. As idiossincrasias dos povos, outrora tão bem reflectidas no futebol, diluíram-se nestas autenticas torres de babel que pululam por essa Europa fora.A Premier league é a liga europeia que alberga o maior número de jogadores estrangeiros. Fenómeno que é transversal a todos os clubes que a compõem, ao contrário da liga espanhola ou italiana, em que os candidatos ao título são aqueles que concentram um maior número de estrangeiros nos seus plantéis, algo que não encontra paralelo nos clubes "médios" e "pequenos". Esta situação tem tido, naturalmente, os seus custos para o futebol inglês, sobretudo ao nível do futebol de selecções. A suprema ironia reside no facto de aquele país que sempre olhou sobranceiro para o futebol praticado para lá do canal da mancha, ter acabado por se render a esse futebol e inclusive recrutar seleccionadores estrangeiros.
Voltando ao big four. Com excepção do Manchester United, qualquer semelhança com o futebol praticado pelas restantes equipas e aquilo que são (ou eram) as idiossincrasias do futebol inglês (ou britânico), só pode ser mera coincidência. E mesmo o Manchester United, nos últimos tempos, viu-se na contingência de ter que continentalizar um pouco mais o seu futebol.
O Liverpool então é a verdadeira antítese daquilo que ficou consolidado como o estilo inglês, para o qual, aliás, o clube de Anfield foi um importante contribuinte. Mantém-se o The Kop, o hino You never walk alone e a estátua de Shankly, num estádio onde agora, diariamente, se encontra um astuto treinador espanhol que, sempre de faces rosadas e bloco na mão, criou uma fortaleza futebolística, avessa a grandes espectáculos, mas que é terrivelmente eficaz, sobretudo em provas a eliminar. Falta-lhe ainda saber ser regular, mas essa é uma outra história…
O Chelsea, já antes de Mourinho, era um clube com uma certa tendência “internacionalista” – desde os tempos de Vialli, Gullit e Zola. Depois com Ranieri, e sobretudo José Mourinho, o clube adoptou um estilo futebolístico que também pouco ou nada tem a ver com um “estilo britânico” de jogar futebol.
O Arsenal de Wenger é talvez o produto mais contrastante com aquilo que será o “estilo inglês”. Futebol apoiado, de pé para pé. Um futebol que faz do controle de bola o seu grande e único axioma.
Há ainda outro aspecto que merece reflexão. Para além do big four, o que facilmente se constata é uma certa "leveza" competitiva dos clubes ingleses nas competições europeias (vulgo Taça Uefa).
Portanto, é algo delicado falar de hegemonia do futebol inglês, com excepção daquela época em que a Europa se rendeu verdadeiramente a um domínio avassalador de clubes ingleses, com treinadores ingleses (ou pelo menos britânicos), jogadores ingleses e um estilo futebolístico muito seu e muito próprio – o verdadeiro estilo inglês. Foi a época do brilhante Liverpool de Paisley, do Notthingham Forest de Brian Clough e do Aston Villa. Em nove épocas, esse futebol conquistou sete Taças dos Campeões Europeus.

